Lucas Prim
Lucas Prim Editor do Biz4Devs. Desenvolvedor de software de coração, gestor de profissão.

Dois Exits. Seis anos. Seis Lições.

Dois Exits. Seis anos. Seis Lições.

Vendi minha primeira empresa em 2014 para o Grupo Trigo e a segunda em 2020 para a PagSeguro. Faz 10 anos já mas ainda lembro claramente do dia em que o Cadu me encontrou no corredor da ESAG para elogiar minha palestra sobre um projeto que não deu certo. Quinze minutos de papo renderam um rumo inimaginável para minha vida. Virei empreendedor.

Como a rodinha da bicicleta que ajuda nas primeiras pedaladas, o Cadu - empreendedor nato - me ajudou a dar meus primeiros passos nessa nova vida. Nunca tive muitas referências de empreendedorismo por perto. Na minha família não faltavam valores virtuosos nem incentivo incondicional ao estudo. Mas por lá, o funcionalismo público era o caminho escolhido pela maioria. Eu seguia o mesmo trilho, colecionando dois estágios em laboratórios da universidade e um no Banco do Brasil. Os sócios que me levaram para outro caminho.

Já escutei dezenas de histórias de sociedades que desmoronam com o tempo. Não foi meu caso. Encontrei três pessoas (Cadu, Japa e Marvio) que, embora sejam totalmente diferentes de mim, tenham ambições diferentes das minhas e venham de contextos diferentes do meu, me inspiram todos os dias. O que nos une é nossa ética de trabalho. Sei que posso contar com eles para qualquer coisa. Naturalmente não somos isentos de brigas, problemas e tabus. Mas isso é insignificante perto da força que nós temos juntos.

Lição I: Sócios podem ser uma dádiva ou uma maldição.

Um sócio executivo é uma dádiva quando cumpre todas as condições abaixo:

  1. Tem uma ética de trabalho robusta. Se dedica incondicionalmente ao negócio.
  2. Complementa as suas habilidades. É excelente nas suas áreas de genialidade.
  3. Toma decisões e discute buscando o melhor caminho para a empresa. Não busca satisfazer seu ego e agendas próprias através do negócio.
  4. É racional, transparente, admite seus erros, muda de opinião.
  5. Se interessa autenticamente em ouvir outras opiniões. Está sempre aprendendo e evoluindo como profissional e humano.

Decidir empreender não foi para mim um ato de coragem tanto quanto de rebeldia. E foi na rebeldia que encontrei meus momentos de glória. A rotina de CEO sempre foi tentadora com suas armadilhas e ruídos que induzem a fazer aquilo que todo mundo faz. Consegui evitar as armadilhas e o onipresente canto da sereia me tornando um pensador independente.

Meu conselho para qualquer CEO e empreendedor é de desconfiar das coisas que parecem não fazer sentido. Não dá para ter medo de fazer “perguntas idiotas” e muito menos de parecer burro. Burro de verdade é quem finge que entendeu e só depois vai entender o baile que levou. É o seu orgulho que vai permitir que os seus oponentes levem a melhor. O pior é que desfazer a cagada dói mais no ego do que fazer.

Existem duas ocasiões em especial que pegam o empreendedor pelo fígado. A primeira é quando alguém oferece, de forma deliberadamente vaga, algo que parece bom demais para ser verdade. Quem tem uma rotina sofrida - como um empreendedor - confunde vagalume com raio de sol. Se algo parece bom demais para ser verdade, é porque via de regra você entendeu algo errado. Vai se arrepender. A segunda é quando usam a carta da praxe contra você: “isso é tranquilo, todo mundo aceita, é o padrão”. Você não vai querer ser a pessoa que empaca em algo “padrão”, né? Isso seria admitir ignorância. Não caia nessa. Desconfie e busque entender tudo, especialmente a praxe.

Lição II: Rebeldia paga dividendos.

Seja um pensador independente. Desconfie quando as coisas não parecerem fazer sentido. Questione e não deixe o orgulho entrar no caminho do que é certo. Se alguém te oferecer algo que parece bom demais para ser verdade, geralmente é.

Não ter medo de errar é essencial. Não ter medo de admitir que está errado - só aprendi isso depois de bater muita cabeça - é mais ainda. A vida do empreendedor começa com uma aposta - de que o negócio vai dar certo - e assim segue por toda a jornada. As apostas continuam, só mudam de tamanho. A única certeza do apostador é que perder faz parte do jogo. O mesmo vale para o empreendedor.

Saber dosar resiliência e mudança é o equilíbrio mais ingrato da vida do empreendedor. Se gerenciar uma empresa é uma mistura de arte e ciência, cabe a parte artística responder a pergunta: “Quando é a hora de desistir?”. Para a parte científica resta o método para testar a próxima hipótese.

Lição III: Empreender é apostar.

É inevitável tomar decisões ruins. É inevitável falhar. Entenda quando é a hora de concluir um experimento e seguir para o próximo, seja esse experimento um pequeno teste ou até mesmo toda a tese da empresa. Não saber a hora de parar só vai te custar seu recurso mais escasso: seu tempo na terra.

Depois de uma década de trabalho, foi no último ano que me dei conta de que, no final das contas, tive apenas duas alavancas a minha disposição como CEO: A motivação e a competência do meu time. Posso programar dezenas de sistemas, inventar centenas de conceitos e fazer dúzias de Keynotes mas nada vai funcionar se meu time não estiver alinhado, motivado e capacitado para fazer o que é preciso. Quando pensar que um liderado seu está sendo “incompetente”, existe uma grande chance de o verdadeiro incompetente ser você.

Ter clareza de o que precisa ser feito é relativamente fácil, mas dá pra complicar. O modelo mental que mais funcionou para mim foi o que eu escrevi aqui no B4D, o de pensar na empresa como se fosse uma pessoa prestando serviço para outra. As competências do time vão sempre flutuar entre os aspectos funcionais - capacidade de fazer - e os motivacionais - capacidade de liderar.

Dei a sorte e o azar de nascer auto-motivado para o trabalho. Sorte porque sair do lugar nunca me custou muito. Azar porque eu pensava que todo mundo era igual a mim. Fui um péssimo líder por muito tempo por ter dificuldade em motivar o time. Isso mudou quando li sobre Gestão Situacional e entendi um modelo que me ajudou a decifrar o que compõe a fonte da motivação. A peça que faltava veio através dos princípios que aprendi num livro de 1936. Mais atual que nunca. Todos os modelos de gestão e execução que conheço se apoiam de alguma forma sobre esses pilares: Traction, Scaling Up, Four Disciplines of Execution, etc.

Lição IV: Você tem duas alavancas.

Suas alavancas como gestor são a motivação e a capacidade do seu time. Comunicação é a principal habilidade que você deve desenvolver.

Falando em comunicação, sei como ninguém a diferença entre vender sushi e vender software. Nove em cada dez pessoas que eu falar que vendo sushi vão entender o que eu faço. As mesmas nove não vão entender nada quando eu falar que vendo software de marketing para restaurantes. Quanto mais simples a mensagem, mais fácil propagar.

A essência de qualquer comunicação de marketing ou vendas deveria se apoiar em dois pontos: “o que eu faço” e “por que o que eu faço é o melhor para você”. Gastando todo o tempo no primeiro ponto você não chega no mais importante. Criar uma nova categoria (“o que eu faço”) na cabeça das pessoas é muito difícil. Provavelmente é o motivo pelo qual o Steve Jobs resolveu colocar o “Phone” no “iPhone”. O que Al Ries já dizia na década de 70 continua mais válido do que nunca: o preço de criar um novo conceito na cabeça das pessoas é muito alto.

Lição V: Simplicidade ganha o jogo.

É infinitamente mais fácil construir um negócio em cima de um posicionamento simples e que pega carona em um conceito já existente. Simplicidade na comunicação é o principal catalisador do crescimento do seu negócio. Se você não consegue explicar o que você é rapidamente, pode ter certeza de que vai ter problemas para crescer.

Simplicidade é fruto de muita reflexão. Se teve uma constante ao longo da minha jornada de empreendedor foi o preço que paguei quando desrespeitei um dos três momentos da agenda de um gestor. Já refleti de mais e de menos. Já pulei pra execução sem planejar e já planejei sem inspiração. Minha relação com o tempo sempre foi atribulada por causa das metas absurdas que faziam parecer que não havia tempo para refletir e planejar.

Como empreendedor, é crucial ter tempo para refletir. Não se trata de filosofia per se mas de explorar como deixar as suas premissas mais robustas. Um péssimo planejamento é uma ótima maneira de jogar tempo e dinheiro fora. “Me dê seis horas para cortar uma árvore e passarei as quatro primeiras afiando o machado” (Abraham Lincoln) não é só uma frase bonita, é um mantra para o bom gestor.

Existe uma coisa muito pior do que não planejar ou não refletir, que é parar para planejar e refletir quando é hora de executar. O tempo da execução deve ser intocado. Um excelente planejamento com uma execução duvidosa é muito pior que um planejamento mediano com uma execução primorosa.

Além disso, é importante ressaltar que você como empreendedor precisa também cuidar de sí mesmo. Se alimentar bem, se hidratar, fazer exercícios, ter tempo para se divertir, relaxar com a família e com os amigos é tão importante quanto se dedicar ao trabalho. Não somos robôs, somos humanos. Quanto antes você aceitar e abraçar isso, melhor.

Lição VI: Respeite o tempo.

Existe tempo para se inspirar, tempo para planejar e tempo para executar. Pular qualquer etapa é desperdiçar seu recurso mais precioso. Além do seu tempo de trabalho, é crucial que você tenha tempo para você. Isso vai garantir que a sua capacidade no trabalho esteja sempre no ápice.

Já que você chegou até aqui, vou oferecer mais uma lição extra. Durante a última década tentei diversas vezes usar “Copy/Paste” das lições e modelos de outros empreendedores. A maioria das vezes deu errado. Empreendedores - como eu - acham que tem lições a ensinar. Mas ninguém tem como afirmar se as coisas funcionaram por causa de princípios ou por sorte. Pense por conta própria e avalie se o que você aprende com outros empreendedores se aplica ou não para você. É tão válido na bolsa quanto na vida: “Performance passada não é garantia de resultado futuro”. Use conselhos com moderação. Inclusive estes!